quinta-feira, 5 de outubro de 2006

da natureza do drama.

um bom drama tem que criar um vínculo de identidade com o leitor.
para tanto um recurso útil é o uso de questões universais e conceitos amplos e abstratos. assim o leitor/espectador preenche as lacunas com suas experiências/idéias pessoais.

ou seja, é muito mais fácil que sejamos cativados por um herói que luta contra a opressão de um povo (colocamo-nos na posição fantasiosa de libertador também, ou sentimo-nos justiçados enquanto oprimidos) do que por um herói economista que tem que lidar com o cálculo dos limites trigonométricos da expansão de lêmures na costa do marfim (tá, o exemplo é esdrúxulo, mas não consegui pensar em nada mais chato).

como a política já foi ao teatro (que o diga brecht) e depois ao cinema (que o diga walt disney) nada mais natural que o teatro fosse à política.
e assim se explica o uso de termos cada vez mais abstratos quando tratamos de depoimentos de políticos.

o que motivou o post de hoje foi a declaração de alckmin, tentando se desvincular do apoio oferecido por garotinho. ele veio com um papo ao estilo 'não vou renegar apoios, mas eles não implicam em compromissos' (ou algo parecido) e completou: 'tenho um só compromisso, com o povo brasileiro'. ah, por favor, pra cima de mim com essas frases de efeito de novela das 8? então ele posa ao lado do cara, sorri pras câmeras e agora não assume a paternidade do garotinho?! pra cima de mim não violão!!

não vou eximir lula do uso do drama. mesmo porque basta ver qualquer campanha eleitoral. até a HH sucumbiu à 'heleninha paz e amor'.
mas ao menos lula não é tão canastrão quanto alckmin.

legal é ver os medalhões tucanos explicando o apoio do garotinho. fhc, príncipe da divercionice, saiu-se com esta: "voto não se despreza. você não vê, por exemplo, o lula, desprezando o voto do collor". como se diz tradicionalmente em réplicas de debates: "o candidato não respondeu à pergunta". até porque, pela própria história pessoal, lula nunca subiria num palanque com o collor não é mesmo? seria mais que pacto com o diabo uma coisa dessas - pacto com o diabo é apoio do sarney - seria o supra-sumo do samaritanismo, o lula teria que ser divinamente magnânimo pra esquecer collor e o que ele representou pra sua trajetória política.

pois é, com tantas declarações, no mínimo, surreais, abundando, só tenho a acrescentar à guisa de conclusão: que falta stanislaw ponte preta nos faz.


e mais não digo porque ninguém mais me lê mesmo nesse blógue que já perverteu e ignorou sua função de comentar o maranhão!

3 comentários:

Diogo F disse...

Muito bom! LANÇOU LUZES sobre o q nos cativa na literatura, concordo plenamente.

murilo disse...

mano diogo, não acho que era pra tanto. nem teve muito de análise literária. mas se tu quer mesmo saber odaonde se originou essa teoria eu recomendo '3 usos da faca' do fantabuloso david mamet!! ali ele expõe idéias semelhantes de maneira mais magistral.

mesmo assim, gracias ao meu mais fiel leitor, eheheh!!

Anônimo disse...

eu leio sempre, Mura.