segunda-feira, 22 de novembro de 2010

à guisa de epílogo (sim, eu me estendo demais)

4.     cemitério da recoleta.

certa vez tive uma idéia para uma história: num futuro não muito distante não haveria mais lugares disponíveis para se morar, um grupo de pessoas contraria o tabu comum e resolvem morar no cemitério. e vão chegando cada vez mais até lotar o cemitério. aos poucos, se reproduzem os mesmos esquemas de quem vive do lado de fora: os primeiros moradores tem os maiores mausoléus, mais espaço e mais prestígio. não era uma idéia tão original assim, mas não chega a ser uma idéia ruim. nunca a levei adiante, não sei sobre o que seria o conto/romance, nem que rumo tomaria a trama.
mas o que queria dizer aqui é que tive essa idéia passeando pelo cemitério municipal de curitiba.
mas devo admitir, o cemitério da recoleta é o local ideal pra ambientar a trama.
nunca tinha visto – até então – um cemitério em que tudo é mausoléu, não há um túmulo simples, todos eles são de alguma família. parece mesmo como andar numa cidade. uma cidade antiga e com palnejamento tortuoso, com com casbres grudados um nos outros (a maior parte do tempo), com locais de maior ostentação e bem cuidados logo ao lado de jazigos decadentes e esquecidos, caindo pelos beirais. um lugar que pode ser lúgubre mas que tem suas construções grandiosas. de tal forma que pode até evocar o riso. em geral, a arquitetura mortuária é brega. afinal, trata de afirmar o infinito num espaço que é a constatação do fim. há aí um descompasso inevitável. como quando fazem estátua dos mortos. o objetivo aqui é honrar e lembrar quem se foi, mas o resultado é uma forma zumbizóide, a exemplo da filha que morreu aos 21 anos, digna e cuja estátua esta lá, cabelos escorridos caindo pelos ombros, um braço a frente e o cachorro ao lado, digno de figurar em qualquer terror moderno.

sábado, 20 de novembro de 2010

finalizando os bons ares

3.     balanço geral. dois dias depois da viagem, casa, são paulo.

é sair completamente de seu referencial. e isso que só fui aqui do lado.
 primeira vez do lado de fora do país. argentina, buenos aires, 5 dias. e mesmo apelando pro portuñol me embananei completamente. não entendia nada quando eles falavam rápido. só concordava com a cabeça, vergonhoso de pedir para falarem más despacito. errava as palavras mais simples e conhecidas, ao ponto de dizer com ‘rrua’ com um erre bem puxado (êê embromação!), ao invés da manjadíssima calle. quase me calei por isso. quase. superado o desconforto inicial, até que me virei. meio taciturno e mais sucinto do que de costumes, mas me virei.
era estranho se sentir verdadeiramente estrangeiro nesse local em que os mais simples códigos mudam completamente. por exemplo, quase não se usam os orelhões nas ruas (até porque,por experiência própria, eles roubam tuas fichas e não completam as chamadas), ao invés, há locutorios por toda a parte, é entrar, pedir linha e pagar pelo tempo utilizado (o visor no telefone mostra o valor a pagar). é esquisito perder as mais elementares referências. e olhe que a tal globalização, esse trânsito cada vez mais constantes de marcas hegmônicas e homogêneas, tratou de colocar marcos em todo o lugar. sempre se pode topar com um macdonalds e uma coca cola em uma esquina.
isso não é de todo ruim, dá até um certo conforto ver algo familiar na paisagem, mas também não é bom e imprescindível. sobra a sensação de que o mundo, à medida que aumenta a velocidade, via ficando mais parecido, inidentificável.

buenos aires, vista por esse ãngulo, é uma cidade bem cuidada e igual a tantas outras e com recuerdos de umas tantas também: paris, madri e nova york, como o porteño não vai esquecer de te lembrar.
mas isso seria simplificar demais a cidade, além de ser uma atitude reprovável. é na história e nas pessoas que se revelam as idiossincracias.
um povo que adora cultivar o mau humor (até o humor deles é mau humorado), que grita um com o outro no trânsito e que transforma faixas em meros obejtos decorativos. mas também um povo orgulhoso e brigador, capaz de se reerguer e de se questionar e de questionar sempre, cutucar a ferida mesmo.
mas acima de tudo um povo com o drama na ponta da língua (como, ao que me consta, os latinos em geral). mesmo a previsão do tempo sofre de exageros “ay que rico!” “que tempo hoRRoroso” e por aí vai. imagine como eles tratam a classificação da arrentina.
um povo que quer escancarar a si mesmo seus defeitos, mas que é todo arredio se tiver de falar em público sobre esses defeitos. que dirá ouvir esses defeitos de um gringo!
um povo trágico. vivemos, logo, estamos todos imersos numa tragédia- de um modo ou de outro. por iss, não há como não se identificar com o porteño.

pelo que soube, dentro dos grandes descampados que compõem o país, a coisa muda de figura, e com variações sutis e determinantes (tantas quantas possui a grama ou a neve). desconheço qualquer informação para ousar qualquer análise. mas ouso uma digressão: o tango pode até dar lugar a outra música. o drama, esse não desaparece jamais!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

ainda buenos aires, quase um causo.


2.     a primeira das primeiras impressões. buenos aires, quarto de hotel, poucas horas depois da chegada.

já no táxi vislumbro discussões ao redor de mim. um taxista discute com ‘la policia’, outro quase sai do carro pra brigar com o motorista de ônibus. o que não falta aqui é mau humor. um povo enjoado esse, que gosta de implicar e fazer bico uns com os outros. mas parecem se entender. distantes somos nós, únicos a não sermos hermanos. é bem mais difícil entender e se fazer entender nesse espanhol macarrônico. me hace un poco de verguenza esse mi portuñol. mas é assim que tem que ser. 

terça-feira, 16 de novembro de 2010

abrindo o baú

o bom de ficar um tempão sem blógue é que, em qualquer crise de palavras, dá pra aproveitar posts antigos, ainda que não sejam geniais.

e ainda pago uma promessa pessoal de publicar algo que estava mofando de guardado: um relato sobre minha viagem a buenos aires ano passado (e ainda por cima em três partes, pra quem aguentar acompanhar):



buenos aires – breves anotações de um pretenso diário de bordo.

1.     pré viagem a buenos aires, noite anterior à partida, arrumando a bagagem.

_devemos levar uma 3ª mala? –pergunto a ela.
_acho melhor, a minha já tá cheia e a sua também.
_é que me parece tão excessivo. 3 malas pra só 5 dias fora.
_mas amor, tu mesmo disse, nós vamos do aeroporto pro hotel e de lá de volta pro aeroporto. não custa nada levar bagagem a mais. além disso, temos que ter espaço nas malas pros presentes. buenos aires serve pra isso mesmo: andar e fazer compras.
_eu sei, eu sei. mas continua me incomodando tantas bagagem.
_ besteira, resquícios do tempo em que você acampava. agora você tem 30 anos. tu ainda pode passear a pé por toda a cidade, de mochila e allstar. e pegar um táxi no final do dia, tomar um banho quente num chuveiro decente e dormir numa cama espaçosa. se dá pra ter o melhor dos dois mundos, por que não tê-lo? agora vai lá na despensa e pega a mala vermelha.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Quase 1 segundo (um pretexto para a filosofia de botequim)











Sou epiléptico.
Não é neurocisticercose o que tenho. Não é o 1º estágio larval da tênia que se calcificou e atrapalhou todo o caminho dos neurônios.

Não me o Osama nem uma segunda personalidade camuflada que ataca feito guerrilha quando estou de guarda baixa.
Não. É mais profundo que isso. É epilepsia mesmo. É meu cérebro revoltado comigo, causando pane geral quando judio do corpo, quando me estresso muito, duro pouco,.. bebo além da conta ou junto tudo num pacote bomba.

É nessas horas que meu cérebro explode. Um lado se desentende do outro. Caio, babo, convulsiono e apago qualquer memória do incidente. E depois, além da amnésia do evento, ainda fico um tempo grogue e cheio de dor (espasmos musculares podem ser mais fortes que horas de atividade física com pancadas) sobretudo n nuca e nos ombros, que costumam travar nos ataques.

Por sorte a chance de acontecer é remota, e nunca se manifestou sob efeito de medicação. Minha média tem sido 2 ataques nos últimos 8 anos.

Mas, mesmo tomando remédio e em condições normais, meu cérebro tem pequenos picos epiletiformes. Dura menos de ¼ de segundo. Não causa perda de memória nem ausência congnitiva nem nada. Mas está ali, por todo o cérebro, a indicar como meus nervos fogem de tudo quando não agüenta a realidade - e, ainda mais quando eles não agüentam mais lidar comigo mesmo.
É assim minha epg, epilepsia primária generalizada.

Com o tempo e tratamento esses picos tendem a sumir. É o que diz o médico.

Eu não tenho tanta certeza. Creio que meu cérebro sempre vai ser assim: primário e generalizado.
É vã pretensão achar que consigo ir além desse conceito
Mas não pensem que é simples ser primário e generalizado. Ou, por outra, é simp´les, mas não é fácil (já que não é fácil ser simples).

Vou seguir tentando apreender o básico do mundo e, ambiciosamente, tentando abarcar o todo de cada situação.
Vou seguir tentando ser primário e generalizado.

À guisa de prefácio

Voltei.
Voltei porque cansei de não ter mais um espaço para o proselitismo e a vaidade.
E basta. Dizer mais seria proselitismo.
E vaidade.