4. cemitério da recoleta.
certa vez tive uma idéia para uma história: num futuro não muito distante não haveria mais lugares disponíveis para se morar, um grupo de pessoas contraria o tabu comum e resolvem morar no cemitério. e vão chegando cada vez mais até lotar o cemitério. aos poucos, se reproduzem os mesmos esquemas de quem vive do lado de fora: os primeiros moradores tem os maiores mausoléus, mais espaço e mais prestígio. não era uma idéia tão original assim, mas não chega a ser uma idéia ruim. nunca a levei adiante, não sei sobre o que seria o conto/romance, nem que rumo tomaria a trama.
mas o que queria dizer aqui é que tive essa idéia passeando pelo cemitério municipal de curitiba.
mas devo admitir, o cemitério da recoleta é o local ideal pra ambientar a trama.
nunca tinha visto – até então – um cemitério em que tudo é mausoléu, não há um túmulo simples, todos eles são de alguma família. parece mesmo como andar numa cidade. uma cidade antiga e com palnejamento tortuoso, com com casbres grudados um nos outros (a maior parte do tempo), com locais de maior ostentação e bem cuidados logo ao lado de jazigos decadentes e esquecidos, caindo pelos beirais. um lugar que pode ser lúgubre mas que tem suas construções grandiosas. de tal forma que pode até evocar o riso. em geral, a arquitetura mortuária é brega. afinal, trata de afirmar o infinito num espaço que é a constatação do fim. há aí um descompasso inevitável. como quando fazem estátua dos mortos. o objetivo aqui é honrar e lembrar quem se foi, mas o resultado é uma forma zumbizóide, a exemplo da filha que morreu aos 21 anos, digna e cuja estátua esta lá, cabelos escorridos caindo pelos ombros, um braço a frente e o cachorro ao lado, digno de figurar em qualquer terror moderno.
