sábado, 20 de novembro de 2010

finalizando os bons ares

3.     balanço geral. dois dias depois da viagem, casa, são paulo.

é sair completamente de seu referencial. e isso que só fui aqui do lado.
 primeira vez do lado de fora do país. argentina, buenos aires, 5 dias. e mesmo apelando pro portuñol me embananei completamente. não entendia nada quando eles falavam rápido. só concordava com a cabeça, vergonhoso de pedir para falarem más despacito. errava as palavras mais simples e conhecidas, ao ponto de dizer com ‘rrua’ com um erre bem puxado (êê embromação!), ao invés da manjadíssima calle. quase me calei por isso. quase. superado o desconforto inicial, até que me virei. meio taciturno e mais sucinto do que de costumes, mas me virei.
era estranho se sentir verdadeiramente estrangeiro nesse local em que os mais simples códigos mudam completamente. por exemplo, quase não se usam os orelhões nas ruas (até porque,por experiência própria, eles roubam tuas fichas e não completam as chamadas), ao invés, há locutorios por toda a parte, é entrar, pedir linha e pagar pelo tempo utilizado (o visor no telefone mostra o valor a pagar). é esquisito perder as mais elementares referências. e olhe que a tal globalização, esse trânsito cada vez mais constantes de marcas hegmônicas e homogêneas, tratou de colocar marcos em todo o lugar. sempre se pode topar com um macdonalds e uma coca cola em uma esquina.
isso não é de todo ruim, dá até um certo conforto ver algo familiar na paisagem, mas também não é bom e imprescindível. sobra a sensação de que o mundo, à medida que aumenta a velocidade, via ficando mais parecido, inidentificável.

buenos aires, vista por esse ãngulo, é uma cidade bem cuidada e igual a tantas outras e com recuerdos de umas tantas também: paris, madri e nova york, como o porteño não vai esquecer de te lembrar.
mas isso seria simplificar demais a cidade, além de ser uma atitude reprovável. é na história e nas pessoas que se revelam as idiossincracias.
um povo que adora cultivar o mau humor (até o humor deles é mau humorado), que grita um com o outro no trânsito e que transforma faixas em meros obejtos decorativos. mas também um povo orgulhoso e brigador, capaz de se reerguer e de se questionar e de questionar sempre, cutucar a ferida mesmo.
mas acima de tudo um povo com o drama na ponta da língua (como, ao que me consta, os latinos em geral). mesmo a previsão do tempo sofre de exageros “ay que rico!” “que tempo hoRRoroso” e por aí vai. imagine como eles tratam a classificação da arrentina.
um povo que quer escancarar a si mesmo seus defeitos, mas que é todo arredio se tiver de falar em público sobre esses defeitos. que dirá ouvir esses defeitos de um gringo!
um povo trágico. vivemos, logo, estamos todos imersos numa tragédia- de um modo ou de outro. por iss, não há como não se identificar com o porteño.

pelo que soube, dentro dos grandes descampados que compõem o país, a coisa muda de figura, e com variações sutis e determinantes (tantas quantas possui a grama ou a neve). desconheço qualquer informação para ousar qualquer análise. mas ouso uma digressão: o tango pode até dar lugar a outra música. o drama, esse não desaparece jamais!

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