"Sabe escrever seu nome?"
"Com a graça de Deus, sei sim senhor."
e, no mais das vezes, isso era tudo p que eles sabiam fazer com uma caneta perante um contrato. assim é a realidade da maioria dos assentados que têm a oportunidade de adquirir crédito fundiário.
na verdade eu formulara pergunta errada. o que aquela gente humilde sabia era desenhar em cima de uma linha. e poucos entre eles decodificavam o desenho. diziam-lhes que aqueles rabiscos eram seus nomes e eles acreditavam.
mas notei que havia alguns que se esmeravam, buscavam a redonda perfeição num 'a' e num 'o', cortavam o 't' numa lmediatriza perfeita. à sua maneira exercitavam uma caligrafia chinesa, tal era o afinco com que se dedicavam a uma simples assinatura.
as mulheres seguramente dedicavam maior valor à escrita. tinham lá seus motivos. os homens tratavam a escrita como mais um instrumento. pragmáticos, para eles escrever era assinar um contrato, preencher um cheque, formular uma ata etc.
já para as mulheres escrever era a tarefa em si. a escrita era chave e fechadura. escrever era mais uma maneira de compreender. e as mulheres - e aqui vou ser tendencioso mesmo - por seu instinto materno sempre exercitaram a compreensão de maneira muito mais natural do que os homens.
e era por isso que elas chegavam tarde da noite, sob a luz de uma lamparina ou de uma lâmpada frac, e sentavam a treinar a assinatura. ali ficava um pedaço da identidade delas e, ao mesmo tempo, a assinatura era uma nova identidade que se acrescia à pessoa que a depositava no papel.
essas mulheres criavam, sme o sbaer, uma nova vida, uma vida que se recusava a passar em branco. mas, mais que isso, elas adentravam um novo cárcere, seus desenhos lhes abriam portas de um labirinto e, como se sabe, as portas de um labirinto só servem para nos levar a outras portas.
escrever é isso, um labirinto sem o novelo-guia de teseu. deve ser por isso que as letras são tão tortuosas, e que as palavras são tortuosidades mais complexas, e que frases são exponencialmente tortuosas...
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não sei como é o mundo de quem desconhece as palavras, não me recordo dele. não credio que ele seja impossível, embora com certeza seja bem mais opressivo. mas sei que meu mundo, sem essa tortuosidade em nanquim, grafite ou carvão seria bem mais branco. infernalmente branco.
2 comentários:
Já me vi discutindo com meus botões, se ensinar a ler em terra de iletrados era luxo iluminista ou se fazia sentido. pra quem não lê e tem que assinar, isso pode ser a total opressão. pra quem não quer, e prefere desenhar com os olhos, isso pode ser até bonito. não sei desses homens e mulheres que você encontrou. queria saber mais deles. e através dos seus olhares, saber mais de você. que me interessa poder te acompanhar!
também não sei o quanto é de ajuda ensinar alguém a ler numa situação como essa. agora, sei que isso faz um bem pra auto-estima deles. eles passam a te encarar nos olhos, uma mulher até fez questão de ler o contrato antes de assinar - é claro que ela não entendeu o discurso jurídico, mas estava em busca do entendimento de algo tão diferente de sua realidade.
mas eles não olham os iletrados com soberba, isso se reflete na postura de muitas mulheres que acabam virando professoras - formais ou não - da comunidade
ainda há muitas incongruências nesses homens e mulheres que não consegui identificar. quem sabe ocm o tempo, quando meu olhar se afiar e meu corpo mergulhar na realidade deles
mas obrigaod por me acompanhar nesa jornada, tuas palavras sempre me trazem pro lado mais imaginário da vida e me tiram da factualidade em que por vezes adentro.
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