
Bom, vamos refazer o texto do Bradbury. Sei que vai sair diferente (já está saindo) mas vou criar uma ilusão que me motiva a prosseguir: vou pensar no texto perdido como um esboço medíocre, o texto atual é um refinamento daquele, foi pensado durante todo um final de semana e tem como base a lembrança de um texto já escrito e que nunca mais lerei. É, portanto, um texto melhor. Claro que isso aumenta as expectativas do leitor e permite uma crítica mais feroz por parte dele. Melhor não pensar nisso se quiser continuar até o final.
Parte da ironia em ter o texto perdido é que o livro analisado também trata de obras perdidas. No futuro de "Fahrenheit 451" os livros foram banidos, e sempre que um é encontrado é queimado. Montag, o protagonista, consegue ler alguns capítulos de um livro - depreende-se ser a bíblia - antes que queimem o mesmo. E ao final encontra uma série de pessoas que não tem mais nome, são conhecidos pelas obras que gravaram na mente. Cada um guarda um conhecimento do passado perdido que deve ser repassado. a cultura serve aos homens, e é nos homens que ela sobrevive.
Mas estou me adiantando. Primeiro cabe mencionar que o impulso pra esse texto veio do blógue do Akira. Sempre me sinto meio burro nesse blógue, mas de uma forma positiva. Isso porque o Akira lê e aplica todos os filósofos e sociólogos que admiro e digo gostar (mas nunca consigo passar da pág. 30 da obra de nenhum deles). Refinado que é, Akira diz que também se sente burro em relação a meu blógue. Finjo acreditar, pra manter minha auto-estima. Agora, sendo um pouco contemporizador, diria que nossas mentes funcionam em focos diferentes. Ele tende à análise global e eu, à narrativa. Ele consegue acompanhar raciocínios científicos e se aprofundar nas metodologias, eu funciono através de exemplos e metáforas. Ele é certo em busca de um caminho que explique as coisas, eu me contento com sombras. O Akira seria voltado a entender o mundo e eu a buscar epifanias. Claro que isso é uma simplificação grotesca, pois ambos nos confundimos em nossos métodos.
Mas voltemos à Bradbury. Ou antes não voltemos, vamos um passo atrás. Dois estilos de literatura sempre me fascinaram: o romance policial e a ficção científica (carinhosamente chamada de FC). Do 1º estilo quem primeiro me agradou foi o Sherlock Holmes de Conan Doyle (a bem da verdade, o primeiro que me cativou mesmo foi Marcos Rey com seus romances de mistério na coleção vagalume, mas não nos atenhamos a preciosismos). De início achava Sherlock o máximo, simplesmente genial. Depois de um tempo comecei a considerá-lo um chato empedernido que coincidentemente detinha todos os conhecimentos iluministas (de certa forma ele é mesmo o apogeu dos limite da razão). Recentemente, refiz as pazes com Sir Conan Doyle ao reler alguns contos do grande detetive e perceber que ele errava - poucas vezes é verdade - em suas suposições. Sherlock é a lógica sábia, sabe que pode se enganar em seu caminho, mas os erros do raciocínio aparecem logo, os seres que raciocinam é que fazem questão de ignorá-los. Sherlock é um ideal porque admitia os erros ao invés de encobrir a visão como tantas vezes fazemos. Por estar tão perto da categoria mítica é que Sherlock Holmes atrai tanto. Não atrai apesar de soar inverossímel, a atração vem porque queremos que seja inverossímel, queremos ser, como nosso herói, tão inverossímel quanto. (mas sigamos adiante antes que isso enverede pelo 'caminho do herói' de joseph campbell).
O outro gênero, a FC, foi-me efetivamente apresentado num romance que se utilizava da narrativa policial: "Robôs do Amanhecer", de Isaac Asimov (e é nessa série que aparece o verdadeiro Elijah Baley, bem diferente do que foi apresentado no filme). Quem me emprestou o livro foi minha prima Ana Cláudia. Aliás, muito pior, quem me emprestou foi um namorado da minha prima à época. Temerário, pois eu poderia nunca tê-lo devolvido (devolvi, pelo correio, mas devolvi). O marco para mim, no entanto, foi o fato de ser um livro com quase 400 páginas! Até então a coleção vagalume - sempre ela - era meu ápice. 120 páginas e com algumas figuras no meio. Tenho certeza, por leituras posteriores, de que deixei de apreciar muitas teorias no livro na avidez de descobrir como o mistério se resolveria (ei, eu tinha 13 anos!!). Asimov aliás, foi mestre em mexer com o gênero policial e mesclá-la com FC, destaco duas obras 'Mistérios', uma coletânea de contos do autor, muitos carregados de ironia, e 'Fundação' que, além de conter valiosas lições de política e sociologia, ainda brinca com enigmas.
De todo modo, foi Asimov quem me fez buscar outros autores de FC. Confesso que quase não li sua contraparte - Arthur C.. Clarke - pois o achei demasiadamente científico e descritivo. Apreciei muito mais a ironia de L. Sprague deCamp (do qual não encontrei muito mis do que uns poucos contos na saudosa Biblioteca Pública do PR), mas foi Bradbury quem me cativou.
O 1º conto que li de Bradbury, do qual não me recordo o nome, estava numa coletânmea de FC mas não era nada científico. Ao revés, era extremamente poético. Esse estranhamento que me causou fez com que buscasse mais coisas dele.
E foi mais estranhamento que encontrei ao ler 'As Crônicas de Marte'. O elemento científico estava claramente presente, mas os princípios de ciência expressos num conto divergiam dos utilizados em outro. Ainda assim as 'crônicas' se entrelaçavam pela passagem do tempo. Confesso que não gostei do livro numa primeira leitura, faltava a explicação de muitos porquês (por que os marcianos tinham formas diferentes em cada conto? por que alguém construíria uma barraca de cachorro-quente em marte? por que os negros iriam debandar para o planeta vermelho?...). Mesmo sem saber porquê, terminei o livro. É que o humor, o lirismo e a esperança na redenção da humanidade de Bradbury me conquistaram. A FC era um instrumento para ele falar da condição humana, da luta do ser humano em entender e conviver com outro ser diferente dele (ainda que esse outro ser apenas seja, no fim das contas, um ser humano!).
Por isso segui lendo outros livros de Bradbury que não eram FC - 'O país de Outubro', 'Uma estranha família' - e gostando cada vez mais da narrativa e do uso dos rejeitados como protagonistas.
Mas nada me preparou para a melhor obra dele, e a melhor obra de FC na minha opinião: 'Fahrenheit 451'. Sim, afinal chegamos à análise do livro!
A obra segue a mesma linha de extrapolar certos aspectos de presente com o intuito de denunciar o absurdo em que vivemos, no mesmo estilo de 'Laranja Mecânica', '1984' e 'Adnirável Mundo Novo'. Como neste último o contato com um 'estrangeiro', alguém 'esquisito', alguém 'de fora' dos padrões da sociedade, vai desencadear mudanças e reflexões no protagonista.
Mas o livro de Bradbury é especial por sempre ser lírico, mesmo nos momentos de maiores desespero o autor joga com o fiapo da expectativa de que as coias vão melhorar. nem por isso deixamos de perceber a angústia e a sensação de deslocamento do protagonista.
Mais que isso, Bradbury sabe transformar todas as suposições do protagonista em paranóias inevitáveis (e você, como leitor, segue com a sensação de que os delírios estão corretos!). Acima de tudo, como todos meus autores preferidos, Bradbury sabe explicitar o absurdo que tomamos por realidade.
Por exemplo, quando o chefe dos bombeiros explica como a sociedade chegou ao grau de considerar os livros artefatos hediondos, é inevitável a comparação com a nossa situação presente. Sim, é bem verdade que os livro existem e infestam as prateleiras. Mas que tipo de leituras nós temos? Propaga-se a idéia de que ler é bom, mas nunca se discute a qualidade do que se lê. O livro virou moda, adentrou à indústria cultural, são como os filmes de verão. Leituras viraram entretenimento porque a concepção de cultura restringiu-se a entretenimento. Leitura, como toda forma de arte perene, serve para buscar as angústias. Mas não é isso que a sociedade quer não é mesmo? Angústias geram reflexões, reflexões levam a desejo de mudanças. É melhor que todos se iludam com felicidades instantâneas e esqueçam esse ideal de querer mudar, é melhor não dar tempo pras pessoas pensarem quão insatisfeitas elas são. Comam muito, bebam regiamente, façam ou comprem sexo, vejam explosões e beijos na tela, ouçam batidas fortes e homogêneas no rádio ou leiam manuais de auto-ajuda mas, acima de tudo, não se perguntem "pra que serve a vida?"; ela serve pra se divertir e tudo que não for divertido nós transformaremos em diversão.
E é esse tipo de 'filosofia de vida' que gera queda das torres gêmeas. Quando, deliberadamente, embotamos nossa capacidade de raciocínio é preciso mais do que um amanhecer pra nos depertar, é preciso um choque. Como se olhássemos pro nosso quintal limpo e daí concluíssemos que toda a cidade vai bem. Mais que isso, como se fechássemos os olhos toda vez que saíssemos de casa pra não ter que ver a sujeira. Como acabar com a ilusão? É preciso que a sujeira invada nosso quintal e em 'Fahrenheit 451' - como em 11 de setembro - é exatamente o que acontece. No livro, os EUA se envolvem numa guerra além fronteiras, as pessoas só ouvem falar a respeito através de notícias transmitidas pela tevê oficial. Quando a guerra atinge o país diretamente, as pessoas estão acostumadas demais com a idéia de que são inatingíveis pra saírem de suas casas sendo bombardeadas. Mas não Montag, ele aprendeu a sentir medo, ele voltou a viver, ele retornou seus instintos de sobrevivencia e aos poucos se recoloca no mundo. Sempre que penso em Montag fico pensando quantas vezes ao dia não escolho me desligar do mundo para não ser atingido por ele. Entre tantas outras coisas, o livro me serve com uma âncora moral, um aviso de que se você não encara o mundo, logo o mundo também não encara mais você.
A despeito da atualidade do tema central há outros detalhes que dão sabor à obra. Por exemplo, o protagonista é um bombeiro , em inglês um 'fireman', um 'homem do fogo'. Bradbury manhosamente brinca com o significado dessa palavra. Se hoje um 'homem do fogo' é quem combate o fogo, no futuro previsto eles o causam. Não há mais necessidade de combater incêndios, tudo é feito de material não-inflamável nas cidades. O trabalho dos bombeiros é queimar livros quando descobertos. É o primeiro estranhamento que a obra nos traz, a primeira cena é um bombeiro queimando uma casa. E essa subversão é proposital, Bradbury faz questão de que nos sintamos deslocados, da mesma forma que Montag vai se sentir no decorrer do romance.
Se a função dos bombeiros muda, o símbolo por eles utilizados também muda. A corporação tem como efígie a fênix e a salamandra. A salamandra é elemental do fogo para os alquimistas, nasce do fogo e se alimenta dele. É o fogo primordial, aquele que destrói tudo em seu caminho de purificação até não restarem mais do que cinzas. A Fênix é oestágio seguinte, das sobras do fogo em que se consome, ela renasce, como algo novo ela renasce, perpetua-se porque muda de situação. Montag passa da condição de salamandra à fênix na sua jornada. Ele só é capaz de renascer na medida em que seu passado é destruído, seus laços com o raciocínio embotado e com a alienação frenética e deliberada se rompem, em alguns casos por circunstâncias alheias à sua vontade mas, acima de tudo, porque ele é incapaz de voltar à situação anterior.
Creio que isso é que é viver, aprender ser incapaz de voltar a um estado anterior (lembrando que o 'estado anterior' primordial é o útero); se desapegar dos laços que nos prendem apenas para criar novos laços; isso é evoluir. Destruir para reconstruir. Rabiscar textos para escrever outros melhores. Tentar e tentar e tentar! Ou, no dizer mais do que sábio de Jorge Luís Borges: "Nada se constrói sobre a pedra, tudo sobre a areia. Mas é nosso dever construir como se fôra pedra a areia".
Quando tudo o que me resta é o fastio, sigo queimando meu destino.
Um comentário:
É, vc realmente tinha muita coisa pra dizer... ;) Bj.
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